sábado, 18 de março de 2017

Algumas constatações para a menina de 17 anos que escrevia esse blog

Numa noite de março de 2017 você vai estar sentada no seu quarto sentindo vontade de sair andando sem rumo. As coisas mudaram, você não lê mais com tanta frequência, não ouve Los Hermanos todos os dias (você quase não ouve, apesar de gostar), você ouve bastante sertanejo e antes que pense em achar que estou louca, a gente aprendeu que pode ouvir Jorge e Mateus e Caetano Veloso sem ser crime. Passou uma fase que todo mundo gostava de Clarice Lispector mas ninguém leu o conto do professor de matemática. Aquele 2010 e as pessoas que te encantaram, apaixonaram e fizeram a tórrida paixonite acontecer não passam mais pela sua cabeça a tempos. Existe alguém, mas você ainda espera grandes atitudes românticas como espera hoje. Existem bons amigos, mas não como existem hoje, todos os dias, porque todo mundo tem uma vida, mesmo quando você quer sumir e se esconder do mundo, eles têm uma vida. Mas ainda existe aquele velho sentimento de não pertencimento a lugar nenhum. Hoje você quase se ama de verdade, mas ainda vacila. Você ainda abandona várias coisas, como abandonou o colégio, aliás, se ainda der tempo, volte ao colégio, a vida é muito mais leve e divertida nele. Você abandonou a universidade federal que hoje acha bobeira pensar em entrar. Em algum momento ao longo desses 7 anos você aprendeu muita coisa sobre ser mulher. Mas aprendeu pouco sobre ser você. Ainda não consegue ser você por você, talvez por isso agora nada me resta de concreto, além da solidão. Você não cresce. Mas anda de ônibus, vai até o outro lado da cidade, quando consegue acordar. As vezes ainda tem aquele medo de se desfazer no meio de todo mundo, mas em boa parte do tempo, aprendeu a lidar. Você agora gosta de biologia, entrou em um curso que hoje acha nada a ver contigo. Possivelmente não tem nada a ver comigo também, mas a gente até gosta. Conheceu pessoas boas, foi ao Rio, foi a Bahia, sério, a gente é muito do mar. Andou de avião sem nossos pais, dá para acreditar? Mas achou alguém para colocar o peso de meu mundo, estou tentando colocar esse peso nos nossos ombros, como deve ser e nunca foi. Eu ainda me sinto você, as vezes me sinto alguém antes de você, uma menininha de 15 anos que tem medo de tudo. A gente ainda tem medo de muita coisa mas descobriu novos e maiores medos. Você as vezes senta ao meu lado e não entende porque eu quero desistir de uma vida que você nunca imaginou viver. Eu também não sei. Mas é inevitável não querer me afogar no colchão mesmo a vida em ordem.
Eu ainda não aprendi a confiar em nós. E para isso, para não desistir da minha, da sua e da vida de outras de nós que talvez virão, eu preciso aprender e gostar de ser só. Esse é o único caminho para nós. E lembre-se, não se mate, tem carnaval ano que vem.