quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Irene


A sua sala cheia de delicadezas e seu medo de me ferir sem saber quem eu era direito. O seu pesar por não ter me visto nascer, o meu pesar por não ter ido me despedir. E por não ter compartilhado contigo essa coisa louca de ser neta única e a única menina depois de você. O teu ombro magro me amparando, as risadas, meus trejeitos, mimos, rejeições. O olhar de criança assustada. Duas crianças assustadas. Os livros. A minha mãe. Seus olhos verdes e seu sorriso me chamando de sua irmã. Seus cabelos brancos e a meu medo de não ser suficiente. Sua certeza em me dizer que eu era. Você presente, mesmo perdida na floresta escura do fim da vida. A minha busca por outras de você, minhas florzinhas amadas.
A rosa que você me mandou para dizer : estou aqui. O seu abraço frágil e cheio de força. A música.
Todas essas coisas juntas num só ponto : o ''eu te amo, vó'' entalado na garganta e adiado por um tempo estranho e cruel. Na nossa história o tempo não serviu pra nada, só pra nos separar. Mas o amor junta tudo. Eu sinto sua falta, eu sinto falta de ter conhecido melhor a mulher que me recebeu numa vida e numa casa nova.
A mulher que me salvou. Que me juntou ao meu pai, que fez dele esse cara especial e estranho.
Eu sei o que é ser a única e eu também sou você.


A morte não é o fim!!!



quinta-feira, 19 de setembro de 2013




" Mas então, numa quinta-feira a tarde, de um ano qualquer, tropeçamos nesse amor já supostamente esquecido e percebemos que amor igual não há e que aquela pessoa continua e continuará a ser nossa referencia afetiva mais sincera e profunda. Não é doença nem obsessão. Alias não é nada, só amor. Amor dos bons, daqueles que são únicos e maravilhosos, que acontecem poucas vezes na vida das pessoas. Daqueles amores que ficam e que teremos que conviver com ele como algo concreto e parte de nossas vidas.
(...)  Nenhum sentimento é mais lindo, profundo e transformador que o amor. "




Feliz Aniversário!!!!

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Feminista, eu ?


 “Não se nasce mulher: torna-se.”

Esta frase célebre da Simone de Beauvoir me fez pensar em quando comecei a me identificar com o movimento feminista, no porquê fui a única da sala a ter coragem de levantar a mão quando o professor perguntou quem era a favor da legalização do aborto e tantas outras discussões do tipo, que nem sempre me envolvem mas faço questão de opinar.
Já contei um pouco da minha história no outro post sobre o feminismo e a liberdade (clica aqui pra ver) mas ainda assim não sei o momento exato que me interessei por ser livre dos padrões machistas e religiosos da sociedade.
Muito mais que convites pro farmville e amigas me marcando em fotos em que saí estranha, o que mais me irrita no facebook são as mulheres que curtem blogs do tipo ''o macho alfa'' e ''testosterona''. As mesmas mulheres que curtem quando os caras falam que se a mulher quer um cara bacana não pode pensar em sair pra dançar e beber. Afinal, mulher não pode beber e dançar sem que seja pra provocar um homem, né ?
A constituição machista tem como lei número um : ''mulher não pode gostar de sexo. Mulher faz sexo por obrigação''
O engraçado é que proporcional ao meu interesse pela causa feminista, a minha preguiça por algumas pessoas aumentou. Eu tenho preguiça de gente. De gente bitolada.
De gente que grita que é amor livre mas trata o outro mal. De gente que chama a moça do vestido curto de puta mas só aceita sair com cara que tem carro e com mulher de bunda grande. Preguiça de gente que acha graça em cantada na rua e acha que ofensa homofóbica no futebol não é nada demais. Preguiça de gente que acha que meu time ter lançado uma camisa rosa me ofende.
Talvez por isso eu fique tanto sozinha. E ficar sozinha quer dizer não aceitar alguém que acha que transar no primeiro (ou no terceiro) encontro é motivo pra me perguntar se achei minha ''fulana'' no lixo.
Não sei se eu faria um aborto. Mas sei que toda mulher deve ter direito a escolher o que acontece dentro do próprio corpo. Aonde a vida começa ?
Também sei outra coisa: A culpa nunca é da mulher que sofre uma violência. Não ensine a mulher a ter medo, ensine o homem a não estuprar.
O machista não é só quem bate em mulher, não é só o velho que diz que lugar de mulher é cuidando do marido e o patrão que só contrata mulher (e gostosa!) pra secretária. Pra cargo alto ? jamais.
Um cara veio me dizer que a pessoa pode  querer igualdade dos sexos e não ser machista. Ora, se é só a igualdade dos sexos que o movimento prega, o que seria diferente disso ? Um outro disse ''mas você não é daquelas que odeiam os homens e não raspa o suvaco não, né ?''  A sociedade é doente em relação ao respeito com as mulheres. 
A mulher que transa e engravida, é vagabunda, o homem fez seu papel. A mulher que foi estuprada, devia estar na rua tarde da noite, o homem com certeza foi provocado por uma saia curta demais. A mulher que não segue os padrões de beleza, com certeza não gosta da fruta. Ah, o machismo... escondido no nosso dia-a-dia e a gente quase não percebe. Porque mulher tem que se dar valor, afinal, qualquer mulher que só faz o que quer, não tem valor nenhum. Li em algum lugar que “Feminismo é a ideia radical de que mulheres são gente”. E gente que sente, que tem tesão, fraquezas e calor. Gente que existe.
Que mal tem uma página de ''humor'' fazer uma piada com lugar de mulher ser na cozinha, falar que mulher só gosta de dinheiro, que só serve pra limpar e arrumar ? Se você acha isso uma piadinha de mal gosto, dá uma risadinha e muda de site, não posso te obrigar a entender que tem gente que sofre de verdade por isso. Que não tem escolha. Mas e que não vê como brincadeira ? A internet é um caminho sem volta, não se escolhe como as pessoas vão interpretar aquilo que você escreveu no seu blog de Macho. Não se pode regrar as atitudes do que você escreveu para fazer gracinha. Mas eu posso te achar idiota por escrever ou por curtir a página do blog. Escolha minha.
Enquanto isso, eu vou ficando sozinha, com preguiça do paradoxo que é uma mulher querer ser livre mas dizer que não é feminista. Também é por você.
A minha saia curta, o meu decote não tem nada a ver com se você consegue se segurar nas calças. Eu escolher se quero ou não transar com você hoje, não tem nada a ver com quantas vezes a gente já saiu, mas sim com a minha vontade. Eu não preciso me valorizar, eu já nasci com valor.