sábado, 25 de maio de 2013

Lugar de MULHER é onde ela quiser.

Minha mãe engravidou de mim solteira, aos 37 anos, com um emprego fixo, bom e há quase 20 anos atrás. Apesar do meu pai ter dado apoio durante a gravidez, ela até hoje carrega uma certa mágoa por não terem se casado - "nem que seja no civil", ás vezes ela reclama - talvez por isso, ou por tantas outras pequenas coisas que formam o caráter da gente, ela tem pavor que eu engravide sem casar.
Já tivemos discussões calorosas sobre o tema sexo, virgindade, casamento e homens, mas eu tenho que assumir que entendo os medos dela. Mesmo aos 37 anos, ela sofreu muito com as fofocas e questionamentos por carregar um barrigão de grávida sem uma aliança no dedo. Minha avó, mãe dela, sofreu o dobro, talvez, quando descobriu a filha grávida e solteira. Não a julgo, ela veio de uma família tradicional, patriarcal e tinha medo do sofrimento que a filha ia passar (e passou). E nunca, em hipótese alguma, me destratou perante os outros netos. Era só amor.
Hoje, pensar nisso é quase engraçado. Ser mãe solteira aos 16 é praticamente normal, todo mundo conhece alguém que foi, é ou engravidou antes de chegar aos 20.
Comecei esse texto contando a história da minha mãe - e a minha - porque sempre ficou claro que para o meu pai, as coisas foram muito mais tranquilas, ele nunca sofreu nenhuma repreensão ou se sentiu ofendido com  comentários da família. Quando meus avós descobriram que viria uma netinha, ah, que alegria, foi uma festa !
Descobrir que uma mulher transou antes de se casar, mesmo na década de 90, era algo que causava desconforto na família. Até hoje para alguns é assim.
Os acontecimentos fizeram da minha mãe uma mulher machista, mais por medo que por pensar assim.
Namorados não dormem aqui fácil, e se dormem não pode ser junto de maneira nenhuma, sexo na cabeça dela é só depois de casar.
Mas calma, não odeie a minha mãe, ela é legal, só pensa como 98% das pessoas por muitos motivos que não cabe citar um por um aqui.
E talvez você também seja machista quando chama de puta aquela amiga que transou com um cara na mesma noite que o conheceu. Ou aquela menina que apareceu na festa com um vestido curto demais.
Meu conceito de puta é o seguinte : transou querendo algo em troca além do próprio prazer e de proporcionar prazer ao outro(a), é puta. Não que isso seja errado, é só o meu conceito.
Sentir e dar prazer não deve ser vergonha para ninguém quando as duas (ou mais) partes estão de total acordo.
Algumas vezes, na minha curta experiência de vida, me senti exposta e desprotegida ao ficar a sós com um homem. Sentindo que a qualquer momento, caso passasse na cabeça dele, ele poderia ali, fazer de mim o que quisesse, sem que eu tivesse forças pra me defender. Bom, por sorte, dos caras que eu conheci e me relacionei eu posso reclamar de muita coisa, mas nunca fui desrespeitada no quesito sexo. Nunca fui obrigada a fazer o que eu não queria pelo simples fato de ser mais frágil. Mas não é isso que acontece sempre.
Segundo uma pesquisa feita pela CFEMEA ( Centro Feminista de Estudo e Assessoria )
  • 51% dos entrevistados declaram conhecer ao menos uma mulher que é ou foi agredida por seu companheiro.
  • 75% consideram as penas aplicadas em casos de violência contra a mulher são irrelevantes.
  • O ciúme é o segundo motivo para agressões contra mulheres.
  • Uma em cada seis mulheres sofre com a violência doméstica, nos países pesquisados.
  • Em São Paulo, 29% das mulheres entrevistadas que já tiveram relações íntimas com homens afirmaram que já foram vítimas de agressões físicas ou sexuais cometidas por um parceiro. Nos municípios pernambucanos, esse número chegou a 37%.
  • Na comparação com os outros nove países pesquisados, os índices das cidades brasileiras foram semelhantes aos registrados na Tailândia e na Namíbia.
  • 1 bilhão de mulheres já foram espancadas ou estupradas. 1 bilhão de mulheres, ou uma em cada três do planeta, já foram espancadas, forçadas a ter relações sexuais ou submetidas a algum outro tipo de abuso.
  • 20% das mulheres são alvo de estupro.
  • De cada cinco mulheres no mundo, uma será vítima ou sofrerá uma tentativa de estupro até o fim de sua vida.
  • Nos Estados Unidos, uma mulher é agredida por seu marido ou parceiro a cada 15 segundos. Na França, 25 mil mulheres são estupradas por ano.
    (Fontes dos dados acima: Relatório da Anistia Internacional)
  • Um terço das mulheres entrevistadas (33%) afirmam que a violência sexual é a forma mais grave de violência doméstica, seguida pela violência física(29% ). Para 35% das mulheres brasileiras os tipos mais graves de violência são os mais sutis e que não deixam marcas aparentes, como é o caso da violência moral e da psicológica.
  • Em quase todos os casos de violência, mais da metade das mulheres não pede ajuda. Somente em casos considerados mais graves como ameaças com armas de fogo e espancamento com marcas, cortes ou fraturas, pouco mais da metade das vítimas (55% e 53%, respectivamente) recorrem a alguém para ajudá-las.
Os números me assustam. Me lembrei de uma vez, quando eu tinha meus 11 anos e um velho parado no sinal, dentro de um ônibus, fez gestos obscenos pra mim. Aquilo me enojou de uma forma absurda e eu, automaticamente imaginei que a culpa era minha, por estar arrumada demais para ir a escola.
Semana passada, fui a um show com uma blusa curta, e um cara tentou beijar minha barriga. Fiz um escândalo, gritei e ele me disse ''eu sei que você curte''. Os amigos dele me pediram desculpas alegando que ele estava bêbado e eu continuei caminhando, mas dessa vez, diferente de quando eu era criança, eu soube que a culpa não era minha, afinal, a barriga é minha e eu posso usar a blusa no comprimento que eu quiser. Não é um convite para que me beijem.
Acreditem ou não, machistas, nossas roupas não tem nada a ver com vocês.
Quando nós, mulheres e vocês homens de verdade, vamos nos unir para gritar ao mundo que a culpa da violência contra a mulher NUNCA é dela ? Que a mulher tem direito de sentir calor, prazer, se sentir bem com uma roupa sem ser atacada, estuprada, abusada ?
Anseio para que esse dia chegue rápido, rezo para que nem eu, nem você e nem ninguém seja vítima de uma violência estúpida e horrível por parte de um doente desses.

Amanhã (25/05/2013) vou estar na Marcha das Vadias, tentando chamar a atenção para o direito de ser da mulher.
Vadias somos todas nós.

Marcha das Vadias Belo Horizonte - MG (25/05/2013)
Concentração: 13.00h, na Praça da Rodoviária. Saída às 14:00h em direção à Praça da Estação, passando pela Rua Guaicurus. Da Praça da Estação, subiremos a rua da Bahia em direção à Praça da LIBERDADE.

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2 comentários:

  1. Sempre podemos esperar coisas inteligentes de você :)
    Ótimo texto, parabéns!

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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Se você tem medo do amor, você tem coragem do quê ?