Nos últimos tempos, a frase do Guimarães Rosa “o que era isso, que a desordem da vida sempre podia mais do que a gente?” ecoa com muito barulho dentro de mim. Depois de um ano inteiro de fracassos retumbantes, de muito pouco e nada, de desesperos que mesmo quando eu tenho o dom de explicar só faziam sentido pra mim decidi que era a hora de colocar os pés no lugar onde minha vida acontece e obrigar alguma coisa acontecer.
Diferente de 2021, parece que não restou nenhum filho bom da dor. Não estou mais corajosa, tampouco consigo ver beleza o tempo todo nos momentos de paz, ainda que eu me force e seja assustador admirar a diferença entre a cabeça que pensa e o saco plástico.
Fui esperta, acreditei na vida, consegui ver mais alegria no cuidado de quem se importa do que encarar a angústia de perceber que algumas relações que eu nutria tanto sentimento viraram só eu em um barco remando com uma venda nos olhos pronta para uma guerra pelas delícias do sentir. Ainda que todos os dias alguém bata nas portas do meu coração dando notícias de que meu afeto é caro e que sou sortuda para além da vida adulta.
Vi pedra, não sabia onde estavam as flores, tive medo da morte e não pelos meus pais mas porque temi que eu realmente deixasse de existir. Chorei pelos meus filhos, pelo amor da vida que se eu morro hoje fica sendo quem não foi.
Mas acreditei. Sozinha, perdida e confusa passando um brilho na cara e me obrigando a sentir. Em um cabo de guerra comigo e algumas das pessoas mais especiais do mundo acreditando que a vida presta e eu também. Algum anjo esbelto deve me ver e pensar que posso ter mil defeitos e as vezes não ter saúde mas ninguém pode dizer que eu não tento que a vida entregue estrela.
De alguma maneira, em meio a tanto sono, comprimidos e travesseiros cheirando a cama de hospital brota em meu peito uma fé na vida que me acompanha desde sempre e quem desde abril de 2022 deixei na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro e que inevitavelmente um dia voltarei para buscar.
As vezes dar conta é não morrer e não se amargurar com a falta, ouvir minha mãe cantar esperando que eu complete a música, que meu pai se anime em me ver conversar com alguém, confiar no que entrego, sentir medo e ir com medo mesmo, e que se eu talvez não consiga ajudar mais passarinhos caídos do ninho, como no poema da Emily Dickson, tenho certeza que se eu fizer que na Vida alguém esqueça a Dor ou a Aflição não viverei em vão.