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terça-feira, 25 de março de 2014

Cuidados



Acordo na cama dele e ele me olha calado da fresta que abriu na porta pra se certificar se estava tudo bem comigo, levo um susto mas já me acostumei a ser amada.
A noite passada ele lutou contra o sono pra ficar do meu lado porque eu queria ver um daqueles programas de emergência hospitalar e estar sempre pronto pra responder com um ''claro, meu amor'' tranquilo quando eu pergunto se ele acha que um dia vou ser médica. Mais cedo, meu pequeno de 3 anos correu pros braços dele brincando de 'batalhar' e ele o levantou enquanto arrancava risadas do maior de 7 anos que já entrou na fase da vergonha de se desculpar.
Vivo uma fase de ócio - criativo, emocional e da vida mesmo - e ele vem trazer, nem que seja nos fins de semana, a tão aguardada fuga da rotina.
As vezes ele cuida de mim feito a minha mãe e eu, mentalmente, começo a agradecer. Sempre tive medo de ficar sozinha, sem cuidados, sem proteção. O amor quando chega faz a gente parar de temer a morte.
Pergunto pra ele porque tanto amor, pois me acho - e sou- tão imperfeita, e ele me responde que me ama porque eu fiz a única coisa que sei fazer bem na vida e que ninguém nunca aceitou, antes dele.
Amar com coragem. Amar o amor.
E amar cada pedacinho do sonho que tenho em acordar todos os dias na sua cama, ouvir cada vez mais da sua mãe que é comigo que você vai se casar, pensar em filhos. Me assustar ao lembrar que a dois anos atrás meu maior medo era ter um filho. 
Os dias passam iguais e parece que vai ser assim por mais alguns meses, mas o cinza da vida ganha cor quando você chega e toca a campainha e me abraça do jeito que faz estalar as costas.
Eu gosto muito das caras engraçadas que você faz quando eu falo uma coisa besta. Eu te amo.

O casório intimista, a casa com o banheiro lindo, depois os dois - ou três - filhos com nomes já previamente escolhidos, claro. Um golden e um akita, porque o Rodrigo vai ficar com minha mãe se não ela morre de paixão. E você cuidando de mim enquanto sou quem eu sempre quis ser. E eu te amando, como sempre, como nunca, pra vida. 






segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Pagando língua



"Olá" ele disse, e depois disso veio o maior e mais sincero sorriso do mundo, e entre amigos, brindes de aniversário e eu maluca tentando agradar a todos, a gente se conhecia um pouquinho. Todo mundo sumiu, as conversas se calaram e a gente se beijou. Um beijo que traduzia muita coisa. Nós nos encantamos porque ele adorou minha coragem e porque adorei a fé dele. No outro dia rompi com meus lampejos de lucidez no não colocar os carros na frente dos bois e trouxe ele pra comer meu bolo de aniversário. E o feitiço da sorte fez com que ele, tão querido pelo carinho, não se assustasse comigo. O Rodrigo Amarante aprovou nos dois, de cima do palco. E posso dizer que por 5 segundos dividimos uma risada juntos, só nos 3. Ele me mimava como podia e eu tentava não pirar. Mas dois olhos que sorriem e uma mão firme pra segurar na hora do medo, me diziam : ''vem que eu te seguro''.
São quase dois meses me segurando todos os dias. E cada dia mais.
As vezes ele coloca bossa nova no carro e olha pra mim quando o sinal fecha com cara de carinho. Nosso desespero de viver um amor um com o outro, se acalma nas nossas horas de paz, quando ele fecha os olhos e se aninha no meu peito.
Minhas amigas vivem chamando ele de mozão e ele ri feito criança, enquanto me olha com ternura.
Desconfiava um pouco da veracidade dos meu namoros antigos porque nunca entrei de verdade na rotina e na família de alguém.Mas ele quer me mostrar pro mundo e o mundo dele gosta de mim.
A tão sonhada paz que eu sonhava ao lado de alguém chegou. Não sinto necessidade de que acreditem em nós porque eu já acredito,quase acho redes sociais insuportáveis e tenho preguiça de falar porque ele me ensinou que calado a gente também conversa.
Eu, que sempre vazei e transbordei tudo, hoje posso ficar contida e sem medo, mas sei que se eu quiser borbulhar, ele entende.
Um dia, deitada na cama dele, no escuro e ouvindo a chuva, eu agradeci por todos os caras que passaram por mim, eu precisava ser quem eu sou hoje, pra saber receber o que ele me dá. Não tenho medo de julgamentos porque em dois meses a gente acha que já se conhece a duas vidas e ele diz ''eu estou apaixonado por você''. Eu nunca demorei tanto pra dizer que amo alguém e por isso, a cada dia sem dizer que o amo, sinto que isso amadurece e se enche de verdades.

Eu não aconselho a ninguém que perca a chance de se jogar.
Se ninguém te segurar, como não me seguraram muitas vezes, cair ensina. E purifica e te faz agradecer a verdade e os erros e o destino e todos os falsos e medos.
Eu não perco mais a chance de me jogar...


quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Irene


A sua sala cheia de delicadezas e seu medo de me ferir sem saber quem eu era direito. O seu pesar por não ter me visto nascer, o meu pesar por não ter ido me despedir. E por não ter compartilhado contigo essa coisa louca de ser neta única e a única menina depois de você. O teu ombro magro me amparando, as risadas, meus trejeitos, mimos, rejeições. O olhar de criança assustada. Duas crianças assustadas. Os livros. A minha mãe. Seus olhos verdes e seu sorriso me chamando de sua irmã. Seus cabelos brancos e a meu medo de não ser suficiente. Sua certeza em me dizer que eu era. Você presente, mesmo perdida na floresta escura do fim da vida. A minha busca por outras de você, minhas florzinhas amadas.
A rosa que você me mandou para dizer : estou aqui. O seu abraço frágil e cheio de força. A música.
Todas essas coisas juntas num só ponto : o ''eu te amo, vó'' entalado na garganta e adiado por um tempo estranho e cruel. Na nossa história o tempo não serviu pra nada, só pra nos separar. Mas o amor junta tudo. Eu sinto sua falta, eu sinto falta de ter conhecido melhor a mulher que me recebeu numa vida e numa casa nova.
A mulher que me salvou. Que me juntou ao meu pai, que fez dele esse cara especial e estranho.
Eu sei o que é ser a única e eu também sou você.


A morte não é o fim!!!



quinta-feira, 19 de setembro de 2013




" Mas então, numa quinta-feira a tarde, de um ano qualquer, tropeçamos nesse amor já supostamente esquecido e percebemos que amor igual não há e que aquela pessoa continua e continuará a ser nossa referencia afetiva mais sincera e profunda. Não é doença nem obsessão. Alias não é nada, só amor. Amor dos bons, daqueles que são únicos e maravilhosos, que acontecem poucas vezes na vida das pessoas. Daqueles amores que ficam e que teremos que conviver com ele como algo concreto e parte de nossas vidas.
(...)  Nenhum sentimento é mais lindo, profundo e transformador que o amor. "




Feliz Aniversário!!!!

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Feminista, eu ?


 “Não se nasce mulher: torna-se.”

Esta frase célebre da Simone de Beauvoir me fez pensar em quando comecei a me identificar com o movimento feminista, no porquê fui a única da sala a ter coragem de levantar a mão quando o professor perguntou quem era a favor da legalização do aborto e tantas outras discussões do tipo, que nem sempre me envolvem mas faço questão de opinar.
Já contei um pouco da minha história no outro post sobre o feminismo e a liberdade (clica aqui pra ver) mas ainda assim não sei o momento exato que me interessei por ser livre dos padrões machistas e religiosos da sociedade.
Muito mais que convites pro farmville e amigas me marcando em fotos em que saí estranha, o que mais me irrita no facebook são as mulheres que curtem blogs do tipo ''o macho alfa'' e ''testosterona''. As mesmas mulheres que curtem quando os caras falam que se a mulher quer um cara bacana não pode pensar em sair pra dançar e beber. Afinal, mulher não pode beber e dançar sem que seja pra provocar um homem, né ?
A constituição machista tem como lei número um : ''mulher não pode gostar de sexo. Mulher faz sexo por obrigação''
O engraçado é que proporcional ao meu interesse pela causa feminista, a minha preguiça por algumas pessoas aumentou. Eu tenho preguiça de gente. De gente bitolada.
De gente que grita que é amor livre mas trata o outro mal. De gente que chama a moça do vestido curto de puta mas só aceita sair com cara que tem carro e com mulher de bunda grande. Preguiça de gente que acha graça em cantada na rua e acha que ofensa homofóbica no futebol não é nada demais. Preguiça de gente que acha que meu time ter lançado uma camisa rosa me ofende.
Talvez por isso eu fique tanto sozinha. E ficar sozinha quer dizer não aceitar alguém que acha que transar no primeiro (ou no terceiro) encontro é motivo pra me perguntar se achei minha ''fulana'' no lixo.
Não sei se eu faria um aborto. Mas sei que toda mulher deve ter direito a escolher o que acontece dentro do próprio corpo. Aonde a vida começa ?
Também sei outra coisa: A culpa nunca é da mulher que sofre uma violência. Não ensine a mulher a ter medo, ensine o homem a não estuprar.
O machista não é só quem bate em mulher, não é só o velho que diz que lugar de mulher é cuidando do marido e o patrão que só contrata mulher (e gostosa!) pra secretária. Pra cargo alto ? jamais.
Um cara veio me dizer que a pessoa pode  querer igualdade dos sexos e não ser machista. Ora, se é só a igualdade dos sexos que o movimento prega, o que seria diferente disso ? Um outro disse ''mas você não é daquelas que odeiam os homens e não raspa o suvaco não, né ?''  A sociedade é doente em relação ao respeito com as mulheres. 
A mulher que transa e engravida, é vagabunda, o homem fez seu papel. A mulher que foi estuprada, devia estar na rua tarde da noite, o homem com certeza foi provocado por uma saia curta demais. A mulher que não segue os padrões de beleza, com certeza não gosta da fruta. Ah, o machismo... escondido no nosso dia-a-dia e a gente quase não percebe. Porque mulher tem que se dar valor, afinal, qualquer mulher que só faz o que quer, não tem valor nenhum. Li em algum lugar que “Feminismo é a ideia radical de que mulheres são gente”. E gente que sente, que tem tesão, fraquezas e calor. Gente que existe.
Que mal tem uma página de ''humor'' fazer uma piada com lugar de mulher ser na cozinha, falar que mulher só gosta de dinheiro, que só serve pra limpar e arrumar ? Se você acha isso uma piadinha de mal gosto, dá uma risadinha e muda de site, não posso te obrigar a entender que tem gente que sofre de verdade por isso. Que não tem escolha. Mas e que não vê como brincadeira ? A internet é um caminho sem volta, não se escolhe como as pessoas vão interpretar aquilo que você escreveu no seu blog de Macho. Não se pode regrar as atitudes do que você escreveu para fazer gracinha. Mas eu posso te achar idiota por escrever ou por curtir a página do blog. Escolha minha.
Enquanto isso, eu vou ficando sozinha, com preguiça do paradoxo que é uma mulher querer ser livre mas dizer que não é feminista. Também é por você.
A minha saia curta, o meu decote não tem nada a ver com se você consegue se segurar nas calças. Eu escolher se quero ou não transar com você hoje, não tem nada a ver com quantas vezes a gente já saiu, mas sim com a minha vontade. Eu não preciso me valorizar, eu já nasci com valor.