terça-feira, 16 de novembro de 2010

Mulher acordada.

Acordei. Mas não como se acorda de um sonho incrívelmente bom, aonde tudo que se quer é continuar naquilo. Só acordei, como se acorda todos os dias, mesmo querendo permanecer na cama, mas sem sonhar mais.
Quando aconteceu pela primeira vez, foi horrivel, me vi sozinha na cama, quase sem ar, desesperadamente acreditando naquela velha e falsa história de que quanto mais rápido se volta a dormir, mais chances se tem de voltar pro mesmo sonho. Quase perdi o foco em mim pensando em voltar a sonhar, deitei, rolei por bastante tempo, ouvi gente implorar pra eu ficar acordada e de pé, mas insisti, pois acordar subitamente de sonhos bons é crueldade demais para quem começou a viver agora.
Depois de cochilar várias vezes sem sonhos e acordar com medo de tudo, eu comecei a desistir ao ver os lençois cada dia mais frios e vazios.
Até que por um quase milagre de aniversário, adormeci de novo, e logo depois descobri que aonde havia deixado um sonho cheio de caminhos banhados de esperança, retomei em algo que eu nem o sonho queriamos, por pura rotina.
A partir desta parte, vi a história de longe, como espectadora de um sonho que ninguém queria viver, ou não queriam o suficiente.
Era uma menina, deitada, naquela fase aonde qualquer ruído desperta, enquanto uma parte da mesma menina, se agarrava ao sonho, tentando de todas as formar implorar pra que ele ficasse.
Nesta parte, ela ainda não tinha entendido, ou não queria entender, que sonhos só são bonitos quando querem ser e não quando sentem que são obrigados a isso. Sonho não é presente, sonho é sorte e merecimento, ela se lembrou.
Bem longe dali, ela ouvia um despertador tocar, quase implorando :
- Acorde, menina. O sonho acabou faz tempo.
A menina, teimosa e escorpiana, tampava os ouvidos e fingia ser só aquela parte dos sonhos bons que você sabe que é um sonho e morre de medo de acordar.
Era aquela menina e ninguém podia cobrar que ela não sonhasse, pois a vida toda foi só o que ela soube fazer.
O destino, o sonho e a vida, perceberam que sem interferir ela não ia acordar sozinha. O sonho cansou e vazio, foi embora.
O sonho que acabou na segunda vez, sem nenhuma palavra de amor, desde o começo. Mas havia um porém : O prazer do sonho, entendia o prazer da menina.
Acordar da segunda vez, pareceu menos difícil, ainda que doa se lembrar que sempre ia dormir com a certeza que o sonho ia continuar, mesmo sabendo ser uma grande mentira daquelas que a gente inventa pra colorir a vida, afinal o sonho mudava todos os dias e ela continuava achando tudo lindo.
Agora, acordar é só acordar, processo natural, e acontece.
A menina, que o sonho transformou em mulher, não se arrependerá de ter deixado o sonho acontecer de um jeito que a marcou pelo resto da vida, mesmo que já tenha ouvido de gente que não conhece o sonho, que era só isso que ele queria. Mesmo menina, ela acreditava que não poderia haver mediocridade maior em difamar os fatos, quando tudo que se quis no momento que eles aconteceram se resumia em petrificar o tempo.
Muito mais que o que todo mundo se preocupa que ela tenha entregado ao sonho, ela entregou algo muito mais valioso : o coração.
E por isso, ela estava disposta a conservar a imagem do sonho pura e intacta, mesmo que não queira mais sonhar.E conservará.
A lição que o sonho deixa, é que se você não se acostuma a viver fora dele, vai tudo ficando pequeno e um sonho lindo se transforma em tentativas que dão pena e pena é tão triste que não pode mesmo combinar com brilho.
Quando questionada se gostaria de sonhar de novo, ela só se lembra de dizer que sonhos vivídos mais de uma vez, não tem o mesmo gosto, não sem a intensidade que este tipo de sonho mereceria. Ainda assim, há quem diga que ela reza baixinho todos os dias para acontecer mais uma vez, mas eu, outro dia mesmo, vi nossa menina com um sorriso de vitrine, cantando por ai aquele verso que diz : " Existe aqui uma mulher, uma bruxa, uma princesa, uma diva ,que beleza, escolha o que quiser, mas ande logo vá depressa, nem se atreva a pensar muito, o meu universo ainda despreza, quem não sabe o que quer."
Eu desejo, que ela e todo mundo, entenda de uma vez por todas, que não é de sonhos que se vive a vida e sim de tempos com os olhos bem abertos, vendo em tudo e principalmente em si mesmo, motivos para acordar todos os dias com a esperança de fazer da vida um grande espetáculo, melhor que qualquer sonho. Pois viver é melhor que sonhar.

Para pessoas que não precisam de sonhos pra acordar e nem vivem por ninguém.

PS: a música a qual me refiro no texto é Devolve,Moço da Ana Cañas, muito linda, vale a pena ouvir =)

PS²: Leia também a resposta para esse post, do meu querido amigo Raí Amorim : Ela lavou a alma.

3 comentários:

  1. http://meucafegelado.blogspot.com/2010/11/ela-lavou-alma.html
    Eu só queria te dizer isso.
    Ah!, Eu te amo.

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  2. Vivo de sonhos, e por eles. Concordo que devemos viver a vida, mas creio eu que sem sonhos não teria porque continuar...
    E não deixe de sonhar, menina. Mulheres acordadas uma hora sentem sono, e sonham. :)

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  3. Como é bom acordar do que não existia, né, guria? Eu te entendo, tu sabe que sim. Que agora desperta, tu viva na pele a intensidade de ser feliz!
    Beijos, Drika!

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Se você tem medo do amor, você tem coragem do quê ?